quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A hora íntima - V.M.

UM DIA, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.
0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.
Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.
Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.
Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.
Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Cela

Eu estou presa nesta cela.
Mas dentro dela ainda posso voar!

Cravar.


Beba-me em doses lentas,
degustando meu sabor em seu paladar...
Trague-me em inspiradas intensas,
para meu cheiro te desorientar...
Tenha-me em ritmos diferentes,
para sentir o meu pulsar, a calmaria, a agonia...
Transforme a cama em mesa!
Coma partes distintas de mim,
Sinta o tremor de meus lábios,
Vibre no pesar de meu corpo.
Perca a noção do limite!
Vista-se para a noite,
Fique nu para o dia,
Venha aqui pela tarde.
Vire,
Revire,
Entre em mim!
Saia de mim!
Perca-se,
Pelos cabelos, pelos seios, pelos pêlos, pelos pés!
E permita-me,
Na sua alma,
Pela sua carne,
Desorientar-te!





quinta-feira, 8 de outubro de 2009

De mim - Ada

Já não sei falar do tempo, nem das armas que deixei pelo caminho... Tão pouco posso ter discernimento e controle do meu prazer. E foi naquela estação de trem que perdi as minhas poucas e últimas razões...
Descubro-me a cada passar de dia, noto o quanto sou volúvel a música que é entoada ao fundo, pela vitrola já desgastada pelo correr dos anos. O meu pensamento não é complexo, porém tão menos linear. Possivelmente eu seja justa, no entanto a única certeza que carrego é a da fidelidade a mim mesma, aos meus desejos. Já perdi tantas vezes, ganhei tantas outras, e não me importa mais competir comigo. Cansei de me cansar e tantas insistidas vezes correr contra o instante completo.
O (meu) passado tem o peso de uma caixinha musical, em que toda vez que a abro salta a pequena bailarina, de saia rodada, equilibrando-se sobre a ponta dos pés,e rodando, e movimentando nostalgicamente o segundo, e com os braços erguidos implorando apego. Sem parar, sem cessar, sem desistir. E “bum”! A fecho de novo.
O (meu) futuro é utópico. Lembro-me de fazer dele uma quimera e possivelmente por isso eu viva descontente. E esse descontentamento me faz encarar a vida como uma ausência contínua, mas que pouco me importa estar completa. Gosto de sofrer antecipadamente pelo o que não aconteceu. Gosto de fazer planos e gosto, algumas vezes, a maioria das vezes, que eles falhem, não aconteçam como planejei. E o futuro é uma bolha de sabão que estoura no ar e seus respingos molham fragmentadamente por aí teias que teci.
Já o presente... (o meu) Deixo escorrer pelos dedos dos que e que me possua!...
E no fim, o trem, de alguma maneira, já partiu mesmo...


domingo, 20 de setembro de 2009

.Sobre a manhã passada.

Só peço que esqueçam de me acordar!


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Fotografia

Parece um olho que tudo vê,
uma boca que fala sem mover,
um coração de ilusão profunda...


A atemporalidade que temporaliza,
o respiro eternizado,
a descrição de emoções...

Parado, movimento, gente
terra, mar, céu
poço, música, fosso...

Paralização do móvel no ar,
desvio do concreto indireto,
ideal do "se foi, se fosse..."

O agora que acabou,
a luz que figurou,
o momento que ficou...

Verde, amarelo e azul,
zombarias flutuantes,
cinza, preto e branco...

Verdade multifacetada,
mentira efêmera,
caso casual...

Multiplicidade.
Lateralidade.
Unidimensionalidade.



domingo, 13 de setembro de 2009

Logo.

Embora os dias tenham passado com o peso de quem fica;
mesmo que as horas tenham corrido como pássaro que perde o destino;
ainda que os segundos sejam todos uns tecidos convites;
Continuo aqui, inconstante, com a leveza de quem quer ir longe...

Vê se vem logo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

À flor da pele


Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar "flor na janela"
Me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final...

Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Presença

E o espelho da manhã seguinte já não é o mesmo da noite que passou...
O corpo vestido, a alma nua, o pé no chão
A aversão ao improvável...
A toalha sobre a cama, a janela fechada, balões inflados no ar
E do outro lado da rua a calçada está desabrigada
O vento soa, e ecoa, e voa, e atormenta, e acorrenta...
Há o desequilíbrio no precipício, calcado em plataformas onduladas
Deixando rastros de vertigem, apiedando a queda repentina
Se faz o silêncio! Ecoando em notas de uma guitarra sem cordas
E o vilarejo de portas fechadas deixa abrigar os ruídos de uma lástima
Suspende e dispenca a virilidade do tempo comprimido...
Mas a hora na ampulheta discorre!