quinta-feira, 23 de julho de 2009


Para se viver um grande amor não é preciso pijama de listras, chinelos macios, água no toucador. Para se viver um grande amor não é preciso letra segura, espelho que reflete os corpos nus. É preciso, sim, paixão, lucidez e loucura. Pra se viver um grande amor é preciso andar no bonde errado, amassar os travesseiros, quebrar os castiçais. Também fumar o cigarro pelo filtro, tomar iogurte com licor de anis, ver que a vida está sempre por um triz. Para viver um grande amor é preciso ter ciúme da mulher amada, imaginá-la sempre em cama errada, alvejar com o dardo do ódio o olhar do oponente, fazer do sexo suado uma lembrança onipresente. Para viver um grande amor é preciso empurrar o mesmo carro, rir do mesmo medo, saber a hora certa de revelar todo o segredo Para se viver um grande amor é preciso ausência da vergonha, babar, gozar, chorar na mesma fronha, enxergar com ternura as manchas dos lençóis. É preciso segurar o ponteiro dos segundos, remontar o velho filme de outra maneira, saber que da fração rompida não se faz a conta inteira É preciso engolir, digerir, expelir, fazer do ir e vir o ritmo do aprendizado, reinventar a noção do pecado e exorcizar antigos demônios. Para se viver um grande amor é preciso caiar a cabana ao cair do dia, fazer da melancolia um novo alento, colocar um capacete para dar com a cabeça no muro. É preciso não prever o futuro, lavar as mãos de graxa na torneira, deixar queimar o pão na torradeira e o leite fervido talhar no copo. É preciso covardia, tomar emprestado aquilo que não se devia, arrastar para o fundo o que para o raso servia. Para viver um grande amor é preciso estar perdido em si mesmo, os joelhos na areia e o sexo na lava, é preciso fazer do afago um golpe de clava, é preciso ser gentil, cordato, animal. Também necessária é a ruptura, costurar o machucado com fio de cobre, tecer o perdão em fio de ouro, esticar a vingança com navalha de prata. Para se viver um grande amor é preciso estar ferido. Para se viver um grande amor é preciso entornar a sopa chinesa, rir dos pés sujos, da obsoleta sobremesa. Urge também caçoar do velho disco de vinil que foi riscado, da mola do colchão que cutuca a coluna. É preciso estar tão junto quanto morar lado a lado, é preciso azulejar a passagem em tons de azul e sobretudo inverter os pontos cardeais. Para se viver um grande amor é preciso o olhar do bandido, a agonia da presa, o susto que o rato toma quando a luz é acesa. Para se viver um grande amor é preciso aprender alguns versos, riscar o bom senso da poesia, jogar água fria no rosto, vencer o torpor da apatia. Enfim para se viver um grande amor, é preciso mais que um tubo, mais que um ensaio, mais que um coração ferrado. É preciso ter certeza que mesmo um grande amor dissecado, um grande músculo distendido pode, mesmo que sadio, pra sempre estar perdido.


Nenhum comentário: